Actividades

Eça na rota do Modernismo Brasileiro

SEMINÁRIO QUEIROSIANO 2020


Project Description

A Comida e o Vinho na Obra de Eça e no Panorama Oitocentista Europeu

XXIII SEMINÁRIO QUEIROSIANO

Públicos/Formato

O Seminário Internacional Queirosiano destina-se a todos os interessados na obra queirosiana e na área cultura / literatura / media, nomeadamente a professores (sobretudo, Ensino Secundário), estudantes universitários nacionais e internacionais (graduação e pós-graduação), estudiosos e pesquisadores nas áreas de Ciências de Comunicação, Estudos Culturais e Literários, Turismo Literário.

O formato do Seminário Internacional Queirosiano corresponde a um padrão, com uma tradição consolida desde 1998. Vd. as temáticas das últimas edições: Atividades

Com cada edição, as temáticas e as leituras recomendadas variam.

Introdução e Objectivos

Eça de Queiroz realiza, na sua obra literária, afrescos de grande valor icástico da realidade social portuguesa da segunda metade do século XIX.

Um elemento que caracterizava de maneira exemplar o hiato entre as classes abastadas e as desfavorecidas, no século XIX, era, evidentemente, a alimentação. Em primeiro lugar, por uma óbvia questão económica: o proletariado urbano ou rural não tinha a possibilidade, se não esporadicamente, de trazer pratos elaborados para as próprias mesas; nas casas burguesas e aristocráticas, pelo contrário, a presença de tais alimentos não só estava disponível, como que constituía a norma diária. Em segundo lugar, a diferença de hábitos no sector alimentar dava-se pelo status social: mesmo nas casas ricas, onde, em teoria, haveria a possibilidade de submeter a mesma dieta a todos os habitantes, os criados consumiam alimentos mais simples em relação aos que eram reservados aos senhores; lembrar-se-á o horror que provava Julien Sorel à ideia de comer com os servos, na casa do prefeito, e a acusa que o pai lhe move de ser guloso; nele, ecoa a raiva da queirosiana Juliana, que, em O Primo Basílio, anela a comida da patroa, Luísa. “La table” escreve Balzac “est les plus sûr le thermomètre de la fortune dans les ménages parisiens.”[1] Efetivamente, nos demais autores realistas e naturalistas europeus aparece o elemento gastronômico qual sinal distintivo social. Assim, em Eça, os sacerdotes de O Crime do Padre Amaro gozam duma mesa farta enquanto os pobres de Leiria passam fome, numa contraposição que chama à memória a injustiça representada por Zola, em Germinal, nas iguarias comidas pelos donos da mina e na escassez das mesas dos obreiros.

Além disto, no romance realista, os usos e as preferências alimentares caracterizam as personagens queirosianas: a sensual Leopoldina, ainda em O Primo Basílio, não sabe resistir ao bacalhau de alhada que o álgido marido lhe nega; nesta perspectiva, ela lembra muito de perto a flaubertiana Madame Bovary, que cobiça o alho, os gelados, as compotas, os xaropes e os licores doces.

Na sociedade portuguesa, aliás, o elemento alimentar e enológico tem uma função simbólica que se torna evidente quando se considerar um produto cultural extremamente significativo, a paremiologia.[2] Talvez por causa deste grande papel cultural, em Eça a culinária é descrita com maior cuidado ao pormenor em relação a outros realistas e naturalistas europeus e com um elemento a mais: o uso literário dos produtos típicos da gastronomia portuguesa, constantemente presentes na literatura queirosiana. O ingênuo Cruges, em Os Maias, constrange-se por ter esquecido as queijadas de Sintra para a pedante mãe; o estrangeirado Fradique Mendes lamenta ironicamente o assado de espeto, já desaparecido das casas portuguesas como as demais velhas tradições, enquanto o ínfido Teodorico saboreia, às sextas-feiras, o bacalhau da prostituta que frequenta após ter aparentado, com a velha tia, ter comido apenas pão com água. O bacalhau, de resto, é a presença constante da mesa da casa da Misericórdia, em O Crime do Padre Amaro, e dos convívios da alta sociedade lisboeta em Os Maias, enquanto outra iguaria típica, o arroz, nas suas diversas formas de favas, de forno e doce, marcam a contraposição entre o luxo sem sabor de Paris e a simplicidade genuina da campanha portuguesa em A Cidade e as Serras.

A escolha de colocar nas mesas de seus personagens os pratos e os vinhos mais ilustres da culinária lusitana caracteriza Eça: o clero ganancioso, a burguesia das intrigas amorosas, a aristocracia antiga e intolerante, a antiquada intelectualidade tardiamente romântica que ele, como escritor naturalista, pretende derrotar, são “pratos típicos nacionais” tanto quanto o bacalhau, o arroz doce, os ovos com chouriço, o arroz de forno; tudo isto, acompanhado por um vinho verde ou uma “lágrima” de vinho de Porto, amarga e leve ao mesmo tempo, como o estilo do autor.

[1] Honoré de Balzac, Oeuvres complète, Paris, Houssiaux, 1874, p. 49.
[2] No estudo “Parla come mangi. Lingua portoghese e cibo in contesto interculturale”, editado na Itália em 2015 [Cfr. Emma De Luca (coord.), Parla come mangi. Lingua portoghese e cibo in contesto interculturale, Viterbo, Sette Città, 2015] temos uma coletânea de provérbios portugueses ligados à alimentação curada por Mariagrazia Russo onde se destaca o famoso “Quando o pobre come galinha, um dos dois está doente” evocado pela célebre frase no romance A alma dos ricos de Agustina Bessa-Luís: “Não é preciso ser rico para comer; é preciso ser rico para saborear”. Agustina Bessa-Luís , A alma dos ricos, Porto, Guimerães Editores, 2002, pp. 185-186.

Leituras recomendadas

  • Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro (1875); O Primo Basílio (1878); Os Maias (1888); A Cidade e as Serras (1901).
  • Gustave Flaubert, Madame Bovary (1856)

PROGRAMA

Informação brevemente disponível.

Coordenação Científica

Orlando Grossegesse

Professor associado da Universidade do Minho. Desde 1990 é docente / investigador nas áreas de Literatura e Cultura Alemãs e Comparadas, Tradução e Comunicação Multilingue. Desde 2004 também ensina Estudos Queirosianos, com orientação de mestrados e doutoramentos. Estudou Filologias Românicas e Comunicação Social na Universidade de Munique onde se doutorou em 1989 com uma tese sobre a relação entre conversação e discurso literário na obra queirosiana, publicada sob o título Konversation und Roman (1991). Publicou numerosos estudos no âmbito das Filologias Alemã, Portuguesa, Espanhola e Comparada. Para além da tese de doutoramento, as publicações em livro mais relevantes são: Saramago lesen. Werk – Leben – Bibliographie (1998; 2ª ed. ampliada e atualizada 2009); atas de colóquios e congressos (organizadas ou co-organizadas), entre outras: «O estado do nosso futuro». Brasil e Portugal entre identidade e globalização (2004); com Henry Thorau, À procura da Lisboa africana (2009); com Mário Matos, Mnemo-Grafias Interculturais (2012). Diretor adjunto da Queirosiana (org. das últimas cinco edições: 15-17; 18-20; 21/22; 23/24; 25/26). Membro do Conselho Administrativo e da Comissão Coord. do Conselho Cultural da FEQ. Desde 2013 coordena os Seminários Internacionais Queirosianos. Fundou em 2016 o Centro de Estudos de Tradução (CET-Tormes) associado à FEQ.

Professores Convidados

Informação brevemente disponível.

21 Setembro a 25 Setembro 2020

Número limitado de inscrições
Amigos de Tormes: Desconto 10%
Diploma no final do Curso

BOLSAS DE ESTUDO
Informação brevemente disponíel

A P O I O S

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