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130 anos d’Os Maias

Um Outro Eça de Queiroz – Irene Fialho

Nos 130 anos d’Os Maias – A Instrução Pública
«O sr. Sousa Neto lamentava que os seus muitos deveres não lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno fora esse o seu ideal; mas agora, com tantas ocupações públicas, via-se forçado a não deixar a carteira. E ali estava, sem ter visto sequer Badajoz…
– E V. Exa. De que gostou mais, de Paris ou de Londres?
Carlos realmente não sabia, nem se podia comparar… Duas cidades tão diferentes, duas civilizações tão originais…
– Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvão…
Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvão, sobretudo nos fogões, quando havia frio…
O sr. Sousa Neto murmurou:
– E o frio ali deve ser sempre considerável… Clima tão ao norte!…
Esteve um momento mamando o charuto, de pálpebra cerrada. Depois, fez esta observação sagaz e profunda:
– Povo prático, povo essencialmente prático.
– Sim, bastante prático, disse vagamente Carlos, dando um passo para a sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baronesa.
– E diga-me outra coisa, prosseguiu o sr. Sousa Neto, com interesse, cheio de curiosidade inteligente. Encontra-se por lá, em Inglaterra, desta literatura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de pulso?
Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com descaro:
– Não, não há disso.
– Logo vi, murmurou Sousa Neto, tudo gente de negócio. (…)
Carlos pôde enfim soltar a pergunta que lhe faiscara nos lábios toda a noite:
– Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra também havia literatura?
Ega olhou-o com espanto:
– Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta?
– Não sei… Há tanta gente capaz…
E o Ega radiante:
– Oficial superior duma grande repartição do Estado!
– De qual?
– Ora de qual! De qual há de ser?… Da Instrução Pública!»
In «Os Maias», edição crítica de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, Imprensa Nacional, 2018, pp. 416-417. Ilustração «Natureza Morta com livros e vela», John Frederick Peto, 1890.

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